domingo, 19 de julho de 2009


A Verdade


A porta da verdade estava aberta,

Mas só deixava passar

Meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,

Porque a meia pessoa que entrava

Só trazia o perfil de meia verdade,

E a sua segunda metade

Voltava igualmente com meios perfis

E os meios perfis não coincidiam verdade...


Arrebentaram a porta.


Derrubaram a porta,

Chegaram ao lugar luminoso

Onde a verdade esplendia seus fogos.


Era dividida em metades

Diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.


Nenhuma das duas era totalmente bela

E carecia optar.


Cada um optou conforme

Seu capricho,

sua ilusão,

sua miopia.


[Carlos Drummond de Andrade]

Identidade


A identidade,

como a pele,

renova-se,

perde-se de sete em sete anos,

muda no mesmo corpo,

torna diferente a permanência humana.


A identidade é a soma das intenções,

uma foto instantânea para um propósito imediato que não dura.


A identidade é um equívoco para camuflar o coração.



[Pedro Mexia, in "Duplo Império"]

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens que correm atrás de mulheres. A tarde talvez fosse azul, não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas: pernas brancas pretas amarelas. Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada.
O homem atrás do bigode é sério, simples e forte. Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste se sabias que eu não era Deus se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não seria uma solução. Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração. Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.


[Drummond]

Eu gosto do seu corpo

Eu gosto do que ele faz

Eu gosto de como ele faz

Eu gosto de sentir as formas do seu corpo

Dos seus ossos

E de sentir o tremor firme e doce

De quando lhe beijo

E volto a beijar

E volto a beijar

E volto a beijar


[E. E. Cummings]

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

[Fernando Pessoa]

MÃO EMBAIXO DA BLUSA


Pare de me escutar

Eu acredito no que eu canto

Porque o que eu canto é muito verdadeiro

É o que ha de inteiro num colar de ostras

Sem perola dentro

A gente fica tentando transformar o mundo e vai mudando o mundo

Pra transformá-lo, transformá-lo, transformá-lo...

No que é

E as vezes eu fico pensando

Que eu nao quero ser deusa

Eu nao quero ser diva

Nem musa

O que eu quero

Sabe o que é

A sua mao

Bem aqui debaixo da minha blusa...


[Desconhecido/a]

O copo d'água


O velho Mestre pediu a um jovem triste que colocasse uma mão cheia de sal em um copo d'água e bebesse. - "Qual é o gosto?" perguntou o Mestre. - "Ruim " disse o aprendiz. O Mestre sorriu e pediu ao jovem que pegasse outra mão cheia de sal e levasse a um lago. Os dois caminharam em silêncio e o jovem jogou o sal no lago, então o velho disse: - "Beba um pouco dessa água". Enquanto a água escorria do queixo do jovem, o Mestre perguntou: - "Qual é o gosto?" - "Bom!" disse o rapaz. - Você sente gosto do "sal" perguntou o Mestre? - "Não" disse o jovem. O Mestre então sentou ao lado do jovem, pegou sua mão e disse:- A dor na vida de uma pessoa não muda. Mas o sabor da dor depende do lugar onde a colocamos. Então quando você sentir dor, a única coisa que você deve fazer é aumentar o sentido das coisas. Deixe de ser um copo... Torne-se um lago...

DESCULPA


Você reclama que te olho profundamente.Desculpa,Tudo que vivi foi profundamente.Eu te ensinei quem soue você foi me tirando os espaços entre os abraços,guarda-me apenas uma fresta.Eu que sempre fui livre,não importava o que os outros dissessem.Até onde posso ir para te resgatar?Reclama de mim, como se houvesse possibilidadeDe eu me inventar de novo.Desculpa,desculpa se te olho profundamente, rente à peleA ponto de ver seus ancestrais nos seus traços,A ponto de ver a estrada antes dos teus passos.Eu não vou separar minhas vitórias dos meus fracassos!Eu não vou renunciar a mim; nenhuma parte, nenhum pedaçodo meu ser vibrante, errante, sujo, livre, quente.Eu quero estar viva e permanecer te olhando profundamente!"


[Autor/a desconhecido/a]

"A política está tão repulsiva que vou falar de sexo". Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo. Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha?
As mulheres não são mais para amar; nem para casar. São para "ver". Que nos prometem elas, com suas formas perfeitas por anabolizantes?
Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados. As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem apavorados e murchos diante de tanta gostosura. Os machos estão com medo das "mulheres-liquidificador".
O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas ou irmãs almejam ser (meu Deus!), é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "Valentina", a "Barbarela", a máquina-de-prazer sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão.
Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há. Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou. Ou, então, reprodutores como o Zafir, para o Robô-Xuxa.
A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres. Ilusão à toa. A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: superobjetos. Se achando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor, carinho e dinheiro. São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades. Mas, diante delas, o homem normal tem medo. Elas são "areia demais para qualquer caminhãozinho".
Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens eles vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando sacos, lambendo botas,engolindo sapos, sem o antigo charme "jamesbondiano" dos anos 60.
Não há mais o grande "conquistador". Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeur, babando por deusas impossíveis.
Ah, que saudades dos tempos das "bundinhas e peitinhos" "normais" e "disponíveis"... Pois bem, com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor (eu). Mas ainda existem mulheres de verdade. Mulheres que sabem se valorizar e valorizar o que tem "dentro de casa", o seu trabalho. E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir um gosto pela música, pela cultura, pela família, sem medo de parecer um "chato" ou um "cara metido a intelectual".
Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas. Mulheres que adoram receber cartas, bilhetinhos (ou e-mails) românticos. Escutar no som do carro, aquela fitinha velha dos Beegees ou um cd do Kenny G (parece meio breguinha)... mas é tão bom!!! Namorar escutando estas musiquinhas tranqüilas.
Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" o papo deve ser do tipo: - "meu"... o meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil!." - "Ah meu...o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nunca vou precisar de plástica". E a música??? Só se for o último sucesso "(????)" dos Travessos ou Chama-chuva..." e o "Vai Serginho"???...
Mulheres do meu Brasil Varonil!!! Não deixem que criem estereótipos!! Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza!! Curta seu corpo de acordo com sua idade, silicone é coisa de americana que não possui a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza.
E se os seus namorados e maridos pedirem para vocês "malharem" e ficarem iguais à feiticeira, fiquem... Igual a Feiticeira dos seriados de TV: Façam-os sumirem da sua vida !!!


[Arnaldo Jabor]




As Folhas Tantas de Um Livro Matemático




"Um quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma incógnita
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice a base
Uma figura ímpar, olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo retangular, seios esferóides.
E fez da sua uma vida paralela a dela
Até se encontrarem no infinito
- Quem és tu ? , indagou ele em sua ânsia radical
- Eu sou a soma dos quadrados dos catetos,
Mas pode me chamar de hipotenusa
E de se falarem descobriram que eram
O que em aritmética corresponde a almas irmãs, primos entre si
E se amaram, ao quadrado da velocidade da luz numa sexta potenciação
Traçando ao sabor do momento e da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais nos jardins da quarta dimensão
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas emeridianas
E os exegetas do universo infinito
Corromperam convenções newtonianas e pitagóricas
E resolveram se casar, construir um lar
Mais que um lar, um perpendicular.
Convidaram para padrinhos o polígono e a bissetriz
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade integral e diferencial
E se casaram, tiveram uma secante e três cones, muito engraçadinhos
Foram felizes, até que um dia em que tudo vira afinal monotonia
Foi então que ele apareceu:
O máximo divisor comum
Freqüentador de círculos concêntricos viciosos.
Ele ofereceu a ela uma grandeza absoluta
E reduziu-a a um denominador comum
Ele, o quociente, percebeu que ela não formava mais uma unidade
Desse problema ela era uma fração a mais ordinária
Foi então que Einstein descobriu a relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser moralidadeComo aliás em qualquer sociedade".




[Millôr Fernandes]



"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador... Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos.
O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos.
Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador >recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto. Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa.
Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar. Ela foi deixando...ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.
Começaram a se aproximar...ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.
Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.
Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.
Estavam na posição de primeira e segunda pessoas do singular: ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente... Era o verbo auxiliar do edifício ! Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.
Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história. Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício. O verbo auxiliar se entusiasmou, e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente ! Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.
Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva”.


[Esta é uma redacção feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) que obteve vitória em um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa]

A VERDADEIRA HISTORIA....


Um dia, no jardim do Éden, Eva disse a Deus:


- Deus, tenho um problema!

- Qual é o teu problema, Eva?

- Deus, sei que me criaste e me deste este maravilhoso jardim e todos estes maravilhosos animais e esta serpente tão graciosa, mas .... não sou feliz.

- Por que, Eva? (disse a voz lá de cima).

- Deus, estou sozinha e não agüento comer mais maçãs.

- Bem, Eva, nesse caso, tenho uma solução. Criarei um homem para ti...

- O que é um homem, Deus?

- Um homem será uma criatura defeituosa, com muitos atributos negativos. Mentiroso, arrogante, vaidoso; em resumo, fará da tua vida um inferno. Mas... será maior, mais rápido, e vai caçar e matar animais para ti. Terá um aspecto estúpido quando ficar excitado, mas, para que não te queixes, vou criá-lo com o objetivo de satisfazer as tuas necessidades físicas. Será patético e sentirá prazer em coisas infantis, como lutar e dar pontapés numa bola. Não será muito inteligente e vai precisar do teu conselho para pensar adequadamente.

- Parece ótimo - disse Eva com um sorriso irônico.

- Porém...

- Qual é o problema, Deus?

- Bem... irás tê-lo com uma condição.

- Qual, meu Deus?

- Como te disse, será orgulhoso, arrogante e egocêntrico... Assim terás que deixar que ele acredite que eu o fiz primeiro.


[Autor/a desconhecido/a]

Thinking about it...



"Todos os dias

quando me olho ao espelho

vejo uma pessoa

que não sou eu

e

todos os dias

me lembro

que não me deixam ser quem sou"

[Autor/a desconhecido/a]