domingo, 19 de julho de 2009




As Folhas Tantas de Um Livro Matemático




"Um quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma incógnita
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a do ápice a base
Uma figura ímpar, olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo retangular, seios esferóides.
E fez da sua uma vida paralela a dela
Até se encontrarem no infinito
- Quem és tu ? , indagou ele em sua ânsia radical
- Eu sou a soma dos quadrados dos catetos,
Mas pode me chamar de hipotenusa
E de se falarem descobriram que eram
O que em aritmética corresponde a almas irmãs, primos entre si
E se amaram, ao quadrado da velocidade da luz numa sexta potenciação
Traçando ao sabor do momento e da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais nos jardins da quarta dimensão
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas emeridianas
E os exegetas do universo infinito
Corromperam convenções newtonianas e pitagóricas
E resolveram se casar, construir um lar
Mais que um lar, um perpendicular.
Convidaram para padrinhos o polígono e a bissetriz
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade integral e diferencial
E se casaram, tiveram uma secante e três cones, muito engraçadinhos
Foram felizes, até que um dia em que tudo vira afinal monotonia
Foi então que ele apareceu:
O máximo divisor comum
Freqüentador de círculos concêntricos viciosos.
Ele ofereceu a ela uma grandeza absoluta
E reduziu-a a um denominador comum
Ele, o quociente, percebeu que ela não formava mais uma unidade
Desse problema ela era uma fração a mais ordinária
Foi então que Einstein descobriu a relatividade
E tudo que era espúrio passou a ser moralidadeComo aliás em qualquer sociedade".




[Millôr Fernandes]


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